O Espiritismo "Made In Brazil"

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O Espiritismo "Made In Brazil"

Mensagem  Jorge_Murta em Ter Out 30, 2012 7:36 pm

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Ancorada num verde-amarelismo típico da década de 1930, a obra "Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho" se mostra anacrônica seja para espíritas de outras nacionalidades seja para imigrantes brasileiros, para quem a "árvore do evangelho" se transplanta junto com sua trajetória de migração- Bernardo Lewgoy

O artigo que lerão a seguir foi publicado originalmente por Bernardo Lewgoy, que é Professor do Departamento de Antropologia da UFRGS. Ele não é espírita e faço aqui, uma adaptação do texto original de Bernardo, face ao tamanho do mesmo, mas mantenho o texto original para efeitos de comparação em: [Você precisa estar registrado e conectado para ver este link.]

O espiritismo está presente em mais de 30 países, a maioria por influencia da Federação Espírita Brasileira, tendo o próprio espiritismo francês dependido de uma hegemonia brasileira, no que chamaremos de “mercado espírita”, para respaldar suas pretensões de legitimidade, circunscrevendo uma influencia marcadamente francófona e não universal, criando assim uma relação ambivalente com o espiritismo brasileiro.

Percebe-se que há um processo de brasilianização do movimento espírita internacional, no qual o espiritismo abrasilianizado é exportado como produto tipicamente religioso em que crenças e rituais “made in Brazil” tentam, num processo de afirmação identitaria mostrar que o novo movimento espírita nascente nesse ou naquele país, guarda uma relação, digamos, espiritual com a origem brasileira e ao mesmo tempo manter-se universal. E esse processo de brasilianizaçao guarda outros elementos também tais como:

- O modelo federativo da FEB;
- A forma de organização e funcionamento das casas espiritas;
- Os rituais e ênfases praticados no espiritismo brasileiro;
- Literatura predominantemente psicografica de Chico Xavier e Divaldo Franco.

Allan Kardec, o criador do espiritismo, encarnou como poucos o ideal racionalista do século XIX, quando a ciência, a filosofia da história e o determinismo passaram a tomar o lugar do voluntarismo subjetivo na imaginação moral. Como se depreende do Livro dos Espíritos, muito da sua figura tem a ver com a austeridade burguesa da época; e seu ideal de ciência experimental, aplicado à religião, é profundamente marcado pelo positivismo: a importância transcendental do método, a ontologia naturalista, a unidade da verdade garantida através da concordância intersubjetiva dos experimentos, a exposição didática das respostas. Nesse primeiro sentido, Kardec foi um homem das Luzes, que criou uma religião altamente relacionada com os ideais de sua época:

- a laicidade,
- o progresso e
- o espírito científico,

tendo atraído cientistas e literatos. Nesse sentido, o espiritismo anunciava-se como uma religião natural, o que originou uma tensa e não resolvida relação entre demonstração experimental e revelação, que significa que seu prestígio era dependente da simpatia da comunidade intelectual pelo fenômeno.

No caso brasileiro, houve dois deslocamentos importantes em relação ao cientificismo kardequiano:
- o deslocamento da ênfase na mensagem para a ênfase no carisma do médium e
- o deslocamento da comunicação espírita entre indivíduos desconhecidos num mesmo espaço mediúnico impessoal para a mediação relacional entre seres já ligados por nexos anteriores, geralmente familiares.

Comparando a inserção do espiritismo nas histórias francesa e brasileira Aubrée e Laplantine (1990) mostraram que, comparada à França do século XIX, na sessão espírita no Brasil do século XX predominou um espaço familiar antes que um espaço impessoal. Por isso, as mães e mulheres, figuras centrais na mediação familiar, são tão importantes no desenrolar das sessões.

A FEB adquiriu hegemonia no movimento espírita brasileiro a partir de 1949, depois de campanhas nas quais a atuação e promoção de Chico Xavier cumpriu um papel central. A FEB continua, sem dúvida, hegemônica no atual período, mas há um amplo debate interno entre os espíritas e diversas organizações e dissidências, além da própria influência do individualismo psicológico da Nova Era. É preciso frisar que as conjunturas e conflitos que opunham o espiritismo à Igreja Católica assim como reforçava seus nexos com nacionalismo estatista, esgotou-se com o Concílio Vaticano II e com o fim da ditadura militar brasileira. Não por acaso, vários espíritas estiveram ligados ao Estado Novo e, posteriormente ao regime militar de 1964.

Esse esgotamento do modelo de espiritismo da FEB promoveu curiosas reações puristas de volta às origens kardequianas, assim como movimentos opostos em direção às terapias novaeristas, à intensificação do psicologismo na reflexão de espíritas e, por último, mas não menos importante, à afirmação de um compromisso de envolvimento social e educacional nas campanhas das federações espíritas regionais.

O espiritismo de Allan Kardec foi introduzido no Brasil na segunda metade do século XIX, ainda durante o Império, como um entre outros modismos importados da França, potência largamente hegemônica no imaginário intelectual e estético das elites brasileiras da época . Em pouco tempo o espiritismo converteu-se em alternativa religiosa de vanguarda, cujo charme estava em sua singular conjugação entre ciência experimental e fé revelada, associada a um anticlericalismo que agradava a um público de opositores ilustrados do Império, notadamente os abolicionistas e republicanos.

Inicialmente praticado em círculos de imigrados franceses no Rio de Janeiro, o desenvolvimento do espiritismo foi impulsionado pela tradução das obras de Allan Kardec; primeiro pelo jornalista baiano Luiz Olimpio Telles de Menezes, na década de 1860 e, logo após, pelo médico Joaquim Travassos. Nessa época, registraram-se importantes adesões de membros da elite imperial ao espiritismo, como o médico e político cearense Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti (1831-1900), além de outros médicos, advogados, jornalistas e militares. Esse grupo contava desde anti-católicos de tendência mais científica até com outros mais próximos de uma leitura religiosa catolicizante da doutrina espírita, conformando-se uma tensão recorrente no espiritismo posterior, especialmente a partir da fundação da Federação Espírita Brasileira, em 1884.

O espiritismo da FEB congregava uma alternativa religiosa minoritária ao catolicismo, dentro de um espírito "associativista". Aliás, as associações e federações eram o espaço, por excelência, do pluralismo possível nessa época de insipiente democracia republicana. O grupo da FEB, no entanto, só ganhará o reconhecimento de entidade federativa nacional em 1949, no chamado Pacto Áureo (Santos 1997).

Historicamente, a FEB moveu-se numa dialética de oposição e sincretismo com a Igreja Católica. A valorização primordial da caridade, o atendimento assistencialista aos pobres, a ênfase numa "religiosidade interior" acima de "rituais vazios" e a implantação de alguns cultos familiares decorrem de trocas sincréticas paradoxais do espiritismo da FEB com uma Igreja Católica fortemente romanizada em finais do século XIX.

O advento da República trouxe consigo o princípio constitucional da liberdade religiosa. O espiritismo consagrou-se naquele momento como uma doutrina da caridade e da assistência aos pobres (tradicional bandeira católica), sobretudo através da prescrição mediúnica de receitas homeopáticas a uma população praticamente destituída de assistência médica.

Com o tempo, definiu-se um padrão para a organização de centros espíritas, em que a terapia de passes, a fluidificação de água, o atendimento fraterno e a "desobsessão" (espécie de ritual dialógico de exorcismo e conversão de espíritos baixos, marcado por momentos de dramaticidade e agonismo) vieram a suplantar a anterior ênfase no receitismo mediúnico sem, contudo, eliminá-lo. O espiritismo orientou-se para uma clientela de camadas médias urbanas letradas, oferecendo-lhes um sucedâneo laico do catolicismo, afinando-se progressivamente com os desafios de construção nacional no Brasil das primeiras décadas do século XX. Sua mensagem ecoou fortemente entre os segmentos profissionais urbanos, como militares, advogados, funcionários públicos, médicos e jornalistas, muitos deles em oposição ao controle de suas consciências e projetos pelas autoridades católicas. Por se tratar de uma religião que acentua a razão e o livre-arbítrio, realizada em formas organizacionais voluntárias, articuladas num padrão federativo, o chamado kardecismo foi um dos poucos espaços de uma religiosidade reflexiva e interiorizada na primeira metade do século XX, em oposição à religiosidade tradicional e familiar do catolicismo, como já havia destacado o pioneiro estudo de Cândido Procópio de Camargo (1961).

E quem foi afinal, o responsavel pelo proselitismo a nível mundial do espiritismo “Made In Brazil”? Chico Xavier? Não. Chico fazia parte dos planos de se criar, como médium poderoso, uma escatologia nacional (décadas de 30 e 40) e de ser visto como um santo popular não católico (anos 50 em diante) firmando dessa maneira as balizas doutrinarias e rituais de um espiritismo influenciado pela cultura católica brasileira.

Então quem foi o proselitista? Foi Divaldo Pereira Franco que recebeu a “missão” de nos anos 60 em diante, com suas conferencias “around the world” de levar com suas palestras por diversos países (cerca de 50) aos imigrantes brasileiros nesses países (quase nunca eram naturais desses mesmos países), espalhando assim o “espiritismo pirata” por países como Estados Unidos, Holanda, Suécia, Inglaterra, Espanha, Portugal, Guatemala, Honduras, Colômbia, México e... França!

Enquanto Chico Xavier realiza um abrasileiramento do espiritismo francês, fincando raízes numa proposta verde-amarelista típica dos anos 1930, Divaldo Franco expressa uma vontade de expansão internacional da proposta espírita, tal como desenvolvida recentemente pela Federação Espírita Brasileira, ou seja, a articulação de uma brasilianização do espiritismo sem perda da referência básica a Allan Kardec. Nesta proposta, a recepção ao espiritismo articula-se à organização de grupos que fora do Brasil reproduzem o modelo brasileiro de funcionamento, vivência doutrinária e práticas rituais das casas espíritas. Mesmo a bibliografia indicada passa a ser fortemente marcada por obras de Chico Xavier e Divaldo Franco (Não se fala ou divulga as obras de Kardec notaram?) Na obra psicográfica de Chico Xavier, André Luiz e Emmanuel são os espíritos-autores mais freqüentes nas bibliografias difundidas no exterior. A chamada "série André Luiz" focaliza aspectos da vida no mundo espiritual (como no best seller Nosso Lar, que narra a vida numa colônia espiritual) e aprofunda questões técnicas e morais ligadas ao exercício da mediunidade (como, por exemplo, no trato das obsessões espirituais). Considerando-se que foi por intermédio da série André Luiz que o espiritismo brasileiro estabeleceu um cânon textual para a exegese das sessões espíritas, é compreensível que a exportação dessa referência adquira importância estratégica na uniformização de uma hermenêutica religiosa própria no espiritismo brasileiro.

Já as obras do espírito Emmanuel contêm um acento mais doutrinário, em dissertações e romances que se passam nos inícios do Cristianismo, inscrevendo-se num universalismo cristão desde sempre reivindicado pelo espiritismo. É essa pretensão de universalidade cristã que permite aos romances históricos de Emmanuel certa transportabilidade no âmbito de uma diáspora espírita brasileira, que envolve um constante diálogo entre memória nacional e destino migratório.

Ao contrário, uma obra como Brasil Coração do Mundo, Pátria do Evangelho (de Chico Xavier, atribuída ao espírito de Humberto de Campos), que delineia a escatologia nacional do kardecismo no Brasil, não consta em nenhuma indicação bibliográfica dos sites consultados. Ancorada num verde-amarelismo típico da década de 1930, essa obra se mostra anacrônica seja para espíritas de outras nacionalidades seja para imigrantes brasileiros, para quem a "árvore do evangelho" se transplanta junto com sua trajetória de migração.

No século 19 o espiritismo foi, de fato, um movimento internacional, que envolvia pesquisas com William Crookes, Cesare Lombroso, Alexander Aksakof, Ernesto Bozzano, Gustave Geley e outros pesquisadores que eram de países como URSS, Inglaterra, Itália, França e outros, mas esse movimento sofreu uma retração no século 20 chegando, mesmo na França, onde nasceu, a se extinguir ou perder muito de sua importância. Paradoxalmente, enquanto a ciência e pesquisa espíritas decresciam em todo o mundo, o movimento espírita brasileiro, que nada tinha de cientifico ou de pesquisa, ganhava em pujança e o espiritismo que, nas palavras do Codificador não era uma religião no sentido de culto, passou a estar uma religião pré-fabricada, ou seja, e as palavras agora são minhas e não de Bernardo Lewgoy, virou uma religião Viúva Porcina, a que foi sem nunca ter sido.

Desde 1990, o espiritismo tem se articulado em diversos paises, sempre sob a forma de congressos mundiais, nacionais ou regionais, como na França, em 2004, onde dos 1763 participantes do Conselho Espírita Internacional, 1190 eram brasileiros!!! Salta aos olhos a descomunal desproporção existente entre participantes brasileiros e de outros paises, mais se parecendo com um processo de colonialismo pelo espiritismo brasileiro do que um processo de divulgação do espiritismo propriamente dito.

Tendo homenageado o bicentenário do nascimento de Allan Kardec, o Congresso foi fechado com uma conferência do médium brasileiro Divaldo Franco, sempre o grande astro dos eventos espíritas internacionais. Em seu discurso de encerramento, Divaldo não poupou elogios aos pensadores franceses clássicos e contemporâneos, de Voltaire a Edgar Morin. Em plena pátria de Allan Kardec, foi tão absoluta a hegemonia brasileira que a minimização tática da contribuição brasileira em nada ameaçou a posição desfrutada pelo país no movimento espírita internacional.

Com exceção do mundo francófono, é a Federação Espírita Brasileira que fornece o sustento intelectual, ritual e doutrinário para os espíritas. Através de sua editora, a FEB se encarregou da tradução de obras (ditas) espíritas para diversas línguas. Além disso, ela promove cursos de formação de dirigentes, divulgadores, médiuns e oradores espíritas em sua sede, em Brasília, oferecendo vasta bibliografia técnica de apoio às atividades ordinárias de centros espíritas (envolvendo formação, organização e administração de centros espíritas, aspectos legais, realização de congressos, articulação de federações). Isto permite lançar as bases da reprodução de seu modelo nos diversos países através de uma ampla oferta de infra-estrutura, material bibliográfico e referências exemplares para a prática cotidiana de passes, atendimento fraterno, estudo sistematizado da doutrina espírita, desenvolvimento mediúnico, desobsessão, evangelização infantil e ações de caridade. Ou seja, o projeto espiritismo “made in Brazil” ganha corpo.

Chico Xavier e Divaldo Franco estão entre as recomendações bibliográficas da FEB para os países colonizados pelo espiritismo “made in Brazil”. No Japão, Austrália e Inglaterra, Holanda, Suécia e Noruega é extremamente provável que os espíritas desses paises se trate de grupos majoritariamente formado por imigrantes brasileiros e se reúnem, como na Suécia (brasileiras casadas com suecos) e Holanda, em residencias e fazem sessões em português. Na Holanda, pelo menos eles não estão restritos a psicografias chiquisticas ou divaldianas, mas possuem cópias xerox de "Het Boek der Geesten", "Het Boek der Mediums", "Het Evangelie volgens het Spiritisme", "Hemel en Hel", "Genesis" e "Wat is het Spiritisme?". Ou seja, muito pouco para quem quer estudar Kardec.

Na Inglaterra, a valorização da história espírita britânica equilibra uma ênfase exclusivamente brasileira na prática espírita. Nomes de centros com espíritas famosos como Sir Wiliam Crookes – também nome de uma relevante newsletter espírita inglesa – integram essa tentativa de redescoberta de referências nacionais próprias por influência de um espiritismo animado por brasileiros.

Esse diálogo entre influência brasileira e resgate de referências locais é também a tônica do espiritismo hispano-americano e ibérico. No espiritismo espanhol, há uma valorização de fatos e médiuns da história espírita local, com destaque para a reedição das obras da médium Amalia Soler. Percorrendo a bibliografia recomendada no site da federação espírita espanhola, percebe-se uma ampla aceitação das obras do espiritismo brasileiro, em que pese se tratar de um movimento espírita antigo e autônomo. Frise-se que o espiritismo espanhol tem uma considerável tradição republicana e anticlerical, o que lhe rendeu perseguições durante a ditadura de Franco. O apoio de médiuns brasileiros, como Divaldo Franco, contribuiu para revitalizar o movimento espírita espanhol a partir dos anos 1960. Nesse sentido, mantém-se atual a análise de Laplantine & Aubrée quando estes caracterizam o espiritismo espanhol como "estando a meio caminho entre as práticas brasileiras e as práticas francesas", mais aberto a influências variadas .

Também em Portugal é bastante influente a ação do espiritismo brasileiro, desde as primeiras missões de Divaldo Franco, nos anos 1960. Os espíritas portugueses também promovem a valorização de um repertório nacional próprio, onde o poeta Fernando Pessoa é alegado como médium assim como se ostenta "a origem portuguesa de vários personagens do espiritismo brasileiro".

A França tem uma história autônoma de resistência à completa desaparição do movimento espírita, por parte de um pequeno grupo de abnegados, que resultou na fundação, em 1985 da União Espírita Francesa e Francófona sob a direção de Roger Perez. É mister indicar que se trata do espiritismo mais cioso da manutenção de uma independência em relação ao espiritismo brasileiro, perceptível pela tímida introdução da bibliografia brasileira nos documentos, jornais e sites do movimento. Não há médiuns psicógrafos de relevo como no Brasil, não apenas por um tipo de orientação, que remonta a Allan Kardec, onde o médium não desfruta de importância, mas porque mesmo no mais religioso dos grupos espíritas franceses a ênfase é mais científica do que entre os brasileiros. Os franceses que escrevem livros espíritas são pesquisadores que abordam temas e não médiuns que psicografam mensagens de grandes personagens ou romances, como é comum entre os brasileiros, a despeito da grande importância da psicografia na história do espiritismo francês.

As diferenças de ênfase e conteúdo nas práticas espíritas de brasileiros e franceses podem se manifestar num mesmo centro, onde os franceses têm uma apreensão mais científica, intelectual e ética do espiritismo, com pouco ou nenhuma presença do transe de possessão enquanto os brasileiros têm um estilo mais emotivo e centrado na comunicação ritual com os espíritos.

Em seus contatos com os espíritas brasileiros, apesar de já terem sido realizados quatro Congressos Espíritas Internacionais, o que se nota é, comparando-se com outros países, uma tímida introdução das referências bibliográficas de médiuns brasileiros – como Chico Xavier e Divaldo Franco – nas indicações bibliográficas dos sites espíritas franceses e belgas. Estará em jogo uma ameaça à identidade nacional do espiritismo francês nessa recusa a uma abertura mais franca ao Brasil?

Os espíritas francófonos enfrentam, assim, o seguinte dilema: para alcançar a respeitabilidade social em seu próprio país é de suma importância ostentar a presença e a importância do espiritismo em vários países. Mas essa importância cobra o preço de uma brasilianização intolerável para a manutenção de uma intocada identidade espírita francesa.

A solução francesa não passa pela eclosão ou santificação de médiuns carismáticos (como no Brasil), medida incompatível com seu racionalismo. Os espíritas franceses têm investido na formação de um cânon através de uma enciclopédia espírita virtual. Outro investimento consiste na valorização do rico patrimônio religioso espírita, particularmente de marcos que se tornaram centros de uma peregrinação turística de brasileiros, como em Lyon (cidade natal de Allan Kardec), onde recentemente foi inaugurada placa comemorativa referente ao bicentenário de nascimento do Codificador.

No túmulo de Allan Kardec, situado no cemitério Père-Lachaise, em Paris, há uma placa da União Espírita Francesa e Francófona, afixada em 1989, advertindo os visitantes para não realizarem pedidos ou rituais religiosos, ou imposição de mãos diante do túmulo – o mais visitado e florido do cemitério. Frise-se, no entanto, que essa disputa em torno do significado desse santuário está longe de ter sido vencida pelo espiritismo ortodoxo da USFF, pois o túmulo é um santuário de peregrinação. Ou seja, o espiritismo francês está numa encruzilhada, “se correr o espiritismo ‘made in brazil’ pega, se ficar a FEB come”.

Explico: Porque não há no movimento espírita internacional um fenômeno de "regalicização" ou "reafrancesamento" sob a liderança dos espíritas franceses? De fato, Kardec, tal como todas as obras de espíritas franceses dos séculos XIX e XX, é um importante trunfo do kardecismo, integrando-se à tendência geral de transnacionalização com valorização de patrimônios espíritas nacionais. Mas a descontinuidade histórica do prestígio do movimento, sua relativa marginalidade e tamanho reduzido na sociedade francesa atual, onde é praticamente visto como uma seita, são fatores que dificilmente poderiam ser compensados numa competição mundial por hegemonia com o espiritismo brasileiro. Assim, o espiritismo francês se encontra numa encruzilhada: simultaneamente zeloso de sua autoctonia e participante de um movimento internacional que concorda tacitamente com a hegemonia brasileira mas controlando cuidadosamente a penetração das referências deste no espiritismo francês.

Agora, as palavras que se seguem são apenas minhas e não de Bernardo Lewgoy e nem se tratam de adaptações intra-texto:

- O numero de espíritas no Brasil não chega a atingir 1,3% da população brasileira ou seja, calculando-se a mesma em 200 milhões de habitantes chegamos a 2 milhoes e 600 mil espiritas que é... nada! Mas, que e muito perto do exíguo montante de espiritas no mundo e que fica menor ainda se contarmos os espiritas in natura, isto é, os nativos das pátrias que forem consideradas, ou seja, espiritas japoneses, ingleses, portugueses, espanhóis, suecos e assim por diante e não apenas brasileiros radicados nesses países.

No meu entender, esse processo de brazilianiazaçao é errado, pois espalha-se multiplica-se o erro em detrimento do aspecto cientifico e das pesquisas sérias; não divulgamos a doutrina no que ela tem de universal, só divulgamos um neo-catolicismo travestido de espiritismo (ou seria o contrario?) e internamente, no Brasil, a briga entre espíritas aumenta.

Há espiritas que, chamados de místicos, reagem, agressivamente ate, a qualquer menção de ser necessário voltar às bases com Kardec; que se indispõem, furiosamente inclusive, a qualquer tentativa de usar a razão para se analisar coisas como as colônias espirituais, perfectibilidade de médiuns e espíritos; e se revoltam quando dizemos que o progresso intelectual antecede o progresso moral, como se a própria codificação não dissesse o mesmo. Interessante perceber que para eles a moral é mais importante que a razão, a qual vêem como algo secundário, mas não é, pois a caridade, que louvam tanto, nasce de onde, senão de um entendimento (razão) que faz nascer, por sua vez, um senso moral? E é mais importante ainda notar que a reforma moral não se fez justamente por aqueles que mais falam em moral, em caridade, que só falam nelas, que apenas oram e sabem repetir palavras e citações bonitas, mas que não agem pro-ativamente: os chamados religiosos que agridem tanto ou mais do que os não-religiosos.

E há tambem os espiritas não-religiosos, que já foram chamados de cientificistas e mais recentemente de ortodoxos, que prezam por um retorno as bases com Kardec, mas um retorno como um todo e para todos, por uma volta as pesquisas sérias, mas noto uma falha neles. Os dito místicos são mais unidos no erro deles do que os ortodoxos são no que julgamos nossos acertos, achamos que podemos resolver tudo sozinhos e devolver à doutrina espírita o seu legitimo lugar, que seremos o novo Kardec, mas se não houver um movimento sério de união ortodoxa, com cada um deixando de lado o desejo de brilhar sozinho ou em um pequeno grupo, e principalmente sem nos julgarmos os donos do espiritismo, nada conseguiremos e mais cedo ou mais tarde seremos engolidos pela onda mística. Nosso trabalho é mais difícil pois além de ter que vencer as barreiras dos ditos místicos, temos primeiro que vencer nossas próprias barreiras internas, que nos mantém iludidamente auto-suficientes como se nós nos bastássemos sozinhos, sem mais ninguém, para restaurar a identidade da doutrina espírita.

Precisamos uns dos outros, sim e precisamos de todos que vejam no espiritismo mais do que o Espiritismo à brasileira, que queiram de volta uma doutrina nem verde-amarelista nem francesa, mas sobretudo, universal, que responda tanto a brasileiros quanto a japoneses, franceses, portugueses, argentinos e outras nacionalidades do mesmo modo.
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